Ato Noturno: O corpo como linguagem

Dirigido por Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, Ato Noturno é um filme que privilegia a atmosfera e a experiência sensorial em detrimento de uma narrativa convencional. Ambientado nas margens da noite urbana, o longa constrói um retrato íntimo de personagens que habitam o espaço entre o desejo, a performance e a solidão. A trama acompanha a relação entre um ator (interpretado por Gabriel Faryas) e um político, que desenvolvem um fetiche por sexo em público. À medida que a fama os envolve, a busca por encontros cada vez mais arriscados transforma seus corpos em territórios de constante negociação entre o prazer e o perigo.

A direção sustenta essa premissa por meio de uma estética calculadamente fria. Através de luzes artificiais e enquadramentos que isolam os indivíduos, reforça-se o sentimento de deslocamento que atravessa a obra: ninguém parece pertencer totalmente ao lugar que ocupa, seja no palco, na vida pública ou nas relações afetivas. Aqui, a cidade não acolhe; ela meramente observa. Coerente com essa proposta, o roteiro evita explicações fáceis, preferindo sugerir conflitos por meio de silêncios e olhares, o que exige uma entrega maior do espectador.

As atuações acompanham essa lógica de contenção e entrega física. Gabriel Faryas, no papel de Matias, entrega uma performance que lhe rendeu o prêmio de Melhor Ator no Festival do Rio. Ao seu lado, Cirillo Luna e Henrique Barreira completam o trio central com atuações igualmente intensas, onde o corpo se torna a linguagem principal. Nesse contexto, o erotismo não surge de forma gratuita, mas como uma ferramenta multifacetada de poder, sobrevivência e vulnerabilidade.

Essa abordagem crua e honesta tem garantido ao filme uma trajetória de prestígio internacional desde sua estreia no Festival de Berlim. De lá para cá, a produção percorreu festivais em Londres, Mar del Plata, Estados Unidos, Polônia e Portugal, acumulando prêmios importantes como o da Crítica (FIPRESCI) em solo argentino. No Brasil, o longa consolidou seu sucesso no Festival do Rio, onde conquistou três Troféus Redentor e o prêmio de Melhor Filme no Prêmio Felix.

Ainda que o ritmo seja deliberadamente lento, beirando o contemplativo, Ato Noturno mantém sua integridade ao explorar o que resta quando as luzes se apagam e as máscaras caem. Trata-se de um cinema que não busca apenas agradar, mas marcar. Ao investigar a fronteira entre o que se mostra e o que se esconde, o longa reafirma a força do cinema brasileiro contemporâneo em abordar afetos e identidades de forma visceral e profundamente humana.

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