Dirigido por Bill Condon, O Beijo da Mulher-Aranha revisita um clássico da literatura latino-americana com respeito à sua densidade simbólica e um olhar contemporâneo que dialoga com o presente. Ambientado em um regime autoritário inspirado na ditadura militar argentina (1976–1983), o filme se constrói a partir do encontro improvável entre Valentín, um prisioneiro político endurecido pela militância, e Molina, um homem gay sensível que encontra no cinema, especialmente nos musicais de Hollywood, uma forma de sobreviver à brutalidade do cárcere. É na cela, espaço de repressão máxima, que nasce um vínculo marcado por conflito, escuta e transformação mútua.
Condon, cineasta experiente em transitar entre o espetáculo musical e o drama psicológico, demonstra controle ao equilibrar o realismo opressivo da prisão com os momentos de fuga imaginativa narrados por Molina. A escolha de não exacerbar a violência gráfica, embora possa soar como um abrandamento diante da brutalidade histórica do “Processo de Reorganização Nacional”, revela uma opção estética clara: deslocar o foco da tortura física para as marcas subjetivas da repressão. Ainda assim, o contexto político, com suas referências ao terrorismo de Estado, aos desaparecidos e à desumanização sistemática, permanece como uma sombra constante que sustenta a gravidade do relato.

Jennifer Lopez, no papel da Mulher-Aranha, surge menos como personagem tradicional e mais como entidade simbólica. Sua atuação é contida, construída a partir de gestos, olhares e presença cênica, funcionando como projeção dos desejos, afetos e medos de Molina. A atriz entende que sua força está na sugestão: ela encarna o escapismo, o amor idealizado e a promessa de liberdade impossível fora da fantasia. Mesmo com aparições pontuais, Lopez imprime magnetismo e maturidade artística, evitando o excesso e apostando no mistério.
Ao abordar temas como repressão política, homofobia e solidariedade humana, O Beijo da Mulher-Aranha reafirma sua relevância histórica e emocional. Embora a adaptação suavize certas arestas presentes em versões anteriores da obra de Manuel Puig, o filme mantém sua essência: mostrar que, mesmo sob regimes de opressão extrema, a imaginação, o afeto e a arte podem se tornar atos radicais de resistência. É um filme que convida menos ao choque e mais à reflexão e justamente por isso permanece atual e necessário.
