**Reportagem de capa do Folhetim Revista da edição 011 de setembro 2025. Para acessar a versão digital interativa torne-se membro do Folhetim Club aqui**
Jeffrey Dahmer, ficou conhecido mundialmente como o “Canibal de Milwaukee”, quando aterrorizou a cidade de mesmo nome no estado de Wisconsin, nos Estados Unidos, entre 1978 e 1991. Sua brutalidade chocou a sociedade com crimes que envolviam necrofilia, canibalismo e desmembramento.
Embora brutal, Dahmer aparentava ter uma vida comum e mundana, ao estilo daquele vizinho que te ajuda a carregar as sacolas de supermercado ou abre o portão gentilmente para você. Entretanto, ses crimes eram premeditados: Ele atraía homens, muitas vezes de bares gays, para seu apartamento com promessa de dinheiro ou bebida. Lá, ele os drogava, estrangulada e desmembrar os corpos enquanto sentia tesão.
O modus operandi de Dahmer era particularmente perturbador. Ele guardava partes dos corpos de suas vítimas como “lembranças”, fazendo experiências com os restos mortais. Ele confessou ter cozinhado e comido partes dos corpos de algumas de suas vítimas.
A captura de Dahmer aconteceu em 1991, quando uma de suas vítimas, Tracy Edwards, conseguiu fugir de seu apartamento e chamar a polícia. Ao chegarem ao local, os oficiais encontraram fotos e restos humanos espalhados pelo apartamento. Jeffrey Dahmer foi preso e confessou os assassinatos de 17 homens e meninos. Em 1992, ele foi condenado a 15 prisões perpétuas. Em 1994, Dahmer foi espancado até a morte por um colega de prisão, Christopher Scarver, na Instituição Correcional de Columbia, nos Estados Unidos.
Anos mais tarde, em 2022, a Netflix lançou o que se tornou um de seus maiores produtos até então. A antologia ‘Monstros’, tendo Dahmer como protagonista da primeira temporada. Em apenas 12 dias, a série somava 496,05 milhões de horas assistidas e em 60 dias já havia ultrapassado 1 bilhão de horas. A leva de episódios ocupa hoje o terceiro lugar de maior audiência da gigante do streaming, atrás apenas de Stranger Things e Wandinha.
No ano de 2024, a segunda temporada chegou focando agora em Lyle e Erik Menendez, condenados à prisão perpétua depois de assassinarem os próprios pais.
Na época, a série ainda levantou grandes polêmicas na sociedade, dividindo o público, entre os que compreendiam as razões dos irmãos para o crime (ambos sofriam abusos e violência sexual e física desde pequenos) e outros que desejavam ver o Diabo solto, mas não eles.
No Brasil, não foi diferente. A Prime Video embarcou na onda de true crime e produziu a franquia de filme “A Menina que Matou os Pais” focado no caso de Suzane von Richthofen.
Embora a plataforma não divulgue dados de audiência de forma tão detalhada quanto a Netflix, o sucesso de público foi notável e a produção foi bem-sucedida o suficiente para a criação de um terceiro filme, “A Menina que Matou os Pais – A Confissão”.
Já nas plataformas de áudio, uma grande onda de podcasts atingiu em cheio a nova geração que cada vez mais anseia por conteúdos repleto de mistérios, dramas e sangue. O maior deles, Modus Operandi, já ultrapassa a marca de 14 milhões de plays. Apresentado por Carol Moreira e Mabê Bonafé, o produto se tornou um marco na cultura pop brasileira ganhando livros, jogos e até podcasts spin-offs, como O Caso Bizarro, apresentado também por Bonafé.
Segundo levantamentos feitos pela imprensa brasileira (como CNN Brasil, Rolling Stone Brasil, Globo Gente e Exame) e de universidades como PUC Minas e USP, o gênero cresceu de forma exponencial nos últimos anos. Em pouco tempo o podcast “A Mulher da Casa Abandonada” alcançou 3 milhões de ouvintes por episódio. Os dados também apontam que 42% da população dos EUA consome esse tipo de podcast. Com isso, podemos nos perguntar: Porque gostamos de saber de crimes que nos dão medo?
Do cadafalso ao streaming: uma história do crime como espetáculo
Se engana quem acredita que essa moda é de agora. O consumo de crimes já era um fascínio da sociedade desde antes da existência da internet. No século XIX, os chamados folhetins criminais circulavam nas páginas de jornais, narrando assassinatos e julgamentos com a mesma cadência dramática de um romance. O público acompanhava, dia após dia, o desfecho das investigações, ansioso pelo próximo capítulo. Um formato que, de certa forma, antecipa a maratona atual.
Retrocedendo mais alguns séculos, o apetite por histórias sangrentas não se limitava ao papel impresso. Na Idade Média, execuções públicas eram eventos sociais: famílias inteiras se reuniam para assistir ao cumprimento das sentenças, muitas vezes anunciadas como espetáculos itinerantes. Carrascos famosos viravam quase celebridades, e panfletos vendiam “relatos oficiais” dos crimes cometidos.
Com a expansão da imprensa no final do século XIX, jornais sensacionalistas descobriram que violência vendia e muito (como você acha que o Datena ficou tão famoso). Manchetes gritantes, ilustrações de cenas do crime e detalhes escabrosos eram estratégia para garantir tiragens. Já no século XX, o rádio transformou casos policiais em novelas sonoras, criando suspense auditivo; depois, a televisão levou o espetáculo às salas de estar, com programas investigativos e reconstituições dramáticas.
A era digital multiplicou exponencialmente as possibilidades. Podcasts e séries de streaming não só reconstituem crimes, mas mergulham em arquivos policiais, entrevistas com especialistas e narrativas de imersão que aproximam o público dos bastidores das investigações.
E a forma de contar essas histórias evoluiu junto. Técnicas como o cliffhanger (deixar a revelação mais impactante para o final), o uso detalhado de provas forenses e a exploração da psicologia criminal do autor do crime são armas narrativas para manter o espectador grudado até o último minuto. No fundo, a fórmula é antiga: criar tensão, oferecer pedaços de informação e deixar o público faminto pela próxima pista.
True Crime na cultura pop: do tribunal ao tapete vermelho
O que antes era assunto restrito a tribunais e páginas policiais hoje disputa espaço com blockbusters e franquias bilionárias. O gênero true crime virou protagonista no cardápio cultural, cruzando fronteiras de formato e conquistando públicos tão diversos quanto os casos que narra.
Produções como Making a Murderer (Netflix, 2015) abriram caminho para um novo apetite por narrativas investigativas longas, explorando não só os crimes, mas também as falhas da Justiça. No Brasil, O Caso Evandro (Globoplay, 2021) mostrou que o formato podia ter o mesmo apelo por aqui, com uma narrativa minuciosa e imersiva. Já Mindhunter (Netflix, 2017-2019) adaptou para a ficção a história real da criação do perfil criminal nos anos 1970, enquanto Dahmer: Um Canibal Americano (Netflix, 2022) provou o potencial de audiência do gênero, como vimos anteriormente.
Mas o fenômeno não fica restrito às telas. Músicas, livros e HQs também bebem dessa fonte. A banda britânica The Smiths já havia se inspirado em crimes reais para compor letras, e graphic novels como My Friend Dahmer exploram a juventude de assassinos notórios. Biografias não autorizadas, romances baseados em casos e manuais de investigação se tornaram best-sellers, ocupando prateleiras ao lado de grandes lançamentos de ficção.
O sucesso é tão sólido que o true crime já ganhou premiações próprias e espaços dedicados em eventos internacionais. Festivais como o CrimeCon, nos EUA, reúnem investigadores, jornalistas, roteiristas e fãs para discutir casos famosos e novos projetos, com ingressos que esgotam em horas. Plataformas de streaming apostam em lançamentos sincronizados com datas simbólicas de crimes famosos, transformando a estreia de um documentário em um evento global.
Em termos de números, o desempenho do true crime rivaliza (e às vezes supera) gêneros tradicionais. No Spotify, podcasts de crimes reais dominam os rankings. Em 2023, o gênero representou mais de 20% do consumo global de podcasts, ficando à frente de programas de humor e esportes. No audiovisual, séries documentais de true crime frequentemente superam dramas e comédias originais em horas assistidas, evidenciando um apetite do público que vai muito além da moda passageira.
O fascínio por crimes reais não apenas molda tendências culturais — ele movimenta uma engrenagem milionária na economia criativa. Plataformas de streaming, editoras, produtoras de podcasts e até o mercado de eventos transformaram o true crime em um produto com alto valor de mercado.
A Netflix, por exemplo, viu Dahmer: Um Canibal Americano gerar um desempenho que segundo analistas, pode ter rendido dezenas de milhões de dólares em novas assinaturas e retenção de público. No Spotify, podcasts de true crime como Serial e o brasileiro Modus Operandi mantêm posições de liderança há anos, sustentando contratos publicitários robustos. Estima-se que programas do gênero possam faturar de US$ 500 mil a US$ 2 milhões por temporada, dependendo da audiência e do volume de patrocínios.
O mercado editorial também colhe frutos. Livros-reportagem e romances baseados em crimes reais frequentemente aparecem nas listas de mais vendidos, com tiragens comparáveis a best-sellers de ficção. Editoras relatam que títulos do gênero têm ciclo de vendas mais longo que lançamentos comuns, impulsionados por adaptações audiovisuais que renovam o interesse por casos antigos.
Eventos presenciais viraram um nicho lucrativo. O já citado CrimeCon, nos Estados Unidos, cobra ingressos que variam de US$ 400 a US$ 1.000 e reúne milhares de fãs e profissionais por edição. Além disso, canais de TV e plataformas de streaming investem em produtos derivados, de livros a edições de colecionador de séries e documentários.
Até redes sociais participam do ciclo econômico. Casos como o de Gabby Petito, em 2021, geraram bilhões de visualizações no TikTok e YouTube, impulsionando canais de creators especializados em investigar e comentar crimes. Esses criadores monetizam com anúncios, parcerias e assinaturas, formando um ecossistema que transforma tragédias em conteúdo escalável.
O resultado é um mercado que, somando todas as plataformas, mídias e eventos, já movimenta bilhões de dólares por ano globalmente e que segue crescendo com novos formatos, como produções interativas e investigações colaborativas com participação do público.
True crime no cérebro: por que essa curiosidade “mórbida” nos fisga
Existem razões sociais para justificar o gosto e prazer em assistir programas como esse, quase tão explicativos quanto as de filmes de terror de forma geral. Mas há também razões científicas comprovadas pela neurociência. Uma delas é a curiosidade mórbida, ou chamada de Morbid Curiosity. A tendência de buscar informação sobre perigos, ferimentos e transgressões, conteúdos aversivos, porém informativos. Esse traço ajuda a explicar o apelo de horror e true crime em públicos típicos e não clínicos.
Outro fator que os cientistas elencam (e informado em sites como The Scientist e ResearchGate) é que a simulação de ameaça pode oferecer um laboratório emocional. Sentimos medo, nojo e alerta sem risco imediato. Estudos em psicologia evolucionista chamam isso de threat simulation: treinar respostas a perigos observando-os a distância, o que pode ser funcional para aprendizagem de autoproteção. Revisões recentes sobre horror apontam esse mecanismo como central para a diversão com o assustador.
Estados de alta curiosidade ativam o circuito dopaminérgico (incluindo VTA) e modulam o hipocampo, melhorando a memória não só do que nos intriga, mas também de informações incidentais apresentadas junto. Ou seja, exatamente o que séries e podcasts exploram com cliffhangers e revelações graduais. (A ligação entre cliffhangers e dopamina é uma inferência a partir desses achados.)
Estudos também apontam que exposição a cenas ameaçadoras em filmes dispara redes de alerta interoceptivo e controle do medo (como ínsula anterior e cíngulo anterior), com transições para circuitos de luta-fuga quando a ameaça “se aproxima”. Esse loop de tensão e alívio ajuda a explicar por que a resolução de um caso gera prazer, um efeito descrito em revisões sobre mídia assustadora.
Parte do apelo também está no senso de justiça: quando a narrativa culmina na responsabilização do agressor, a excitação acumulada se converte em alívio e euforia, o chamado excitation transfer. Isso reforça o hábito de buscar novas histórias com estrutura semelhante.
Quando o fascínio vira problema
Se, por um lado, o true crime alimenta curiosidade e pode até informar, por outro, levanta dilemas éticos complexos. A principal questão está no limite entre entretenimento e exploração da dor alheia. Ao transformar crimes em produtos para streaming, livros ou podcasts, corre-se o risco de transformar tragédias reais em mercadoria, muitas vezes sem a participação ou consentimento das pessoas diretamente afetadas.
Casos assim não são raros. A série “Dahmer: Um Canibal Americano”, foi duramente criticada por familiares das vítimas, que afirmaram não ter sido consultados nem avisados sobre a produção. Alguns relataram reviver o trauma ao assistir ou ver trechos reproduzidos nas redes sociais, questionando se a plataforma priorizou audiência em detrimento do respeito às memórias das vítimas. Situações semelhantes já ocorreram em adaptações de crimes brasileiros, como quando familiares protestaram contra dramatizações que, segundo eles, distorciam fatos ou exageravam detalhes para criar tensão dramática.
Outro ponto delicado é o risco de transformar criminosos em celebridades pop. Produções que exploram a vida do agressor, especialmente em formato ficcional, podem inadvertidamente humanizar ou romantizar figuras responsáveis por crimes brutais. A popularidade de Jeffrey Dahmer, Ted Bundy ou Charles Manson em redes sociais, com direito a fã-clubes e montagens estéticas, evidencia o quanto essa linha é tênue. Em alguns casos, houve aumento na venda de memorabilia relacionada a serial killers logo após o lançamento de séries ou documentários. Um fenômeno que levanta sérias questões sobre a responsabilidade das plataformas e criadores de conteúdo.
A polêmica se estende também às reconstituições realistas e ao uso de áudios ou imagens originais das investigações. Para críticos, incluir esses materiais pode potencializar a imersão do público, mas também reabrir feridas emocionais e reforçar a espetacularização do sofrimento. Já defensores argumentam que a fidelidade aos fatos é parte essencial do jornalismo e da documentação histórica, desde que acompanhada de contexto e sensibilidade.
Em última instância, a pergunta que paira é: até que ponto contar a história de um crime serve ao interesse público e quando passa a servir apenas à lógica do consumo e da audiência? É nesse território cinzento que produtores, roteiristas e plataformas precisam operar, equilibrando impacto, relevância e ética.
O true crime ocupa hoje um espaço curioso na cultura contemporânea: é, ao mesmo tempo, produto de entretenimento, ferramenta de educação informal e espelho das nossas próprias contradições. Fascina porque revela o lado mais sombrio do ser humano, mas também porque nos dá a sensação de entender — e, de alguma forma, controlar — aquilo que nos assusta.
Ao longo de séculos, a forma de contar essas histórias mudou: do cadafalso medieval ao feed de streaming, sempre adaptando recursos narrativos para manter o público atento. No entanto, a essência do interesse permanece. Continuamos atraídos pelo mesmo misto de medo e curiosidade que fez multidões se reunirem para ler folhetins criminais ou assistir a julgamentos emblemáticos.
O problema é que, ao transformar crimes reais em conteúdo global, corremos o risco de perder de vista o elemento mais importante: as vidas que existiam antes de se tornarem caso. Números de audiência, bilheteria ou vendas podem ofuscar a necessidade de responsabilidade e cuidado, especialmente quando a dor ainda é recente.
E talvez esse seja o dilema central: como seguir contando histórias que importam — que denunciam falhas, revelam injustiças e preservam a memória — sem ceder totalmente à lógica da espetacularização? A resposta não é simples, mas é inevitável que, enquanto houver crimes e mistérios a serem desvendados, haverá também pessoas dispostas a ouvir, ver ou ler sobre eles.
O verdadeiro desafio é decidir que tipo de público queremos ser: aquele que consome histórias de violência apenas pela adrenalina, ou aquele que as utiliza para compreender melhor a natureza humana e, quem sabe, construir um mundo onde elas não precisem mais ser contadas.
