**Reportagem de capa da edição 009 do Folhetim Revista – Junho 2025. Para acessar a versão digital interativa, torne-se membro do Folhetim Club, aqui.**
Imagine uma planta carnívora. Paciente, silenciosa, colorida, exótica e cheirosa. Atraente ao ponto de parecer inofensiva. Ela não força ninguém a nada. Simplesmente está ali, oferecendo néctar doce e uma promessa de prazer fácil. Quando a presa se aproxima, o fecho é rápido e silencioso. O que antes parecia uma escolha agora é apenas o início da digestão.
Assim funcionam as bets, casas de apostas digitais que transformaram o azar em hábito, e o hábito em vício. Elas não gritam. Seduzem. Não amarram. Envolvem. São plataformas ágeis, coloridas e recheadas de recompensas psicológicas disfarçadas de sorte. Oferecem pequenas vitórias como iscas e usam estratégias de marketing, ciência comportamental e design para capturar a atenção e o dinheiro de milhões de brasileiros.
No Brasil, esse fenômeno explodiu como uma epidemia silenciosa. Começou com jogos de futebol, avançou para os eSports, invadiu timelines pelas mãos de influenciadores digitais e, hoje, domina faixas de propaganda em estádios, transmissões esportivas e perfis de jovens celebridades.
Mas o que há por trás dessa indústria bilionária? Como ela usa a dopamina do seu cérebro para te prender como uma planta carnívora segura sua presa? Por que tantos brasileiros estão caindo na armadilha e o que, afinal, está sendo feito para impedir que esse monstro digital devore uma geração inteira?
O mercado de bets movimentou R$ 120 bilhões em 2023, segundo um levantamento feito pelo DataHub, um aumento expressivo comparado a 2020 quando os números chegavam a apenas R$7 bilhões.
Esta reportagem mergulha no submundo sedutor das apostas online. Mostra como o vício se instala, quais áreas do cérebro são afetadas, quais estratégias as empresas usam para fisgar jogadores e quais caminhos ainda existem para escapar do néctar antes que seja tarde demais.

Muito antes dos smartphones
Para compreender como chegamos a este cenário é necessário voltar no tempo e entender como a cultura de apostas começou nas civilizações antigas. Vestígios arqueológicos indicam que dados feitos de ossos eram usados para jogos de sorte no Egito há mais de 4.000 anos. No Império Romano, apostas em lutas e corridas de bigas eram práticas comuns. Na China antiga, registros apontam jogos semelhantes a loterias desde 2.000 a.C., usados até para financiar obras públicas (como partes da Muralha da China).
Ou seja, esse não é um problema de agora. Mas será que há 4 mil anos, os jogos eram de azar ou de sorte?
Na Roma Antiga, por exemplo, as corridas de bigas (ou quadrigas, quando puxadas por quatro cavalos) eram um dos entretenimentos mais populares. O “Circo Máximo”, com capacidade para mais de 150 mil espectadores, era o principal palco dessas competições. Nestes eventos grandiosos, rolava um sistema de apostas peculiar. O Estado da Roma não tinha legalizado nada e muito menos interferido, contudo, a própria população se organizava para isso.
A maioria das pessoas apostavam em qual equipe ou cocheiro venceria a corrida, palpites sobre acidentes ou quem conseguiria completar as voltas. Além é claro, das apostas combinadas, em quem venceria e qual posição seria. Não existia uma ‘casa de aposta’. O esquema funcionava entre os próprios espectadores e claro, agiotas.
A confiança e a honra eram as bases para o pagamento e caso a pessoa não cumprisse a aposta, os perdedores poderiam sofrer alguns danos à reputação e físicos (agiotas batendo em pessoas desde a Roma Antiga). Assim como hoje, as apostas geravam práticas corruptas. Subornos a cocheiros ou tratadores para favorecer determinados resultados eram comuns.
E desde essa época o impacto social já era nocivo. Alguns cidadãos empobreciam após sucessivas perdas, enquanto outros enriqueciam rapidamente. A paixão pelas corridas chegava ao ponto de provocar tumultos entre torcidas rivais, chamados de “factiones”.
A era dos Cassinos e a institucionalização
A palavra “cassino” deriva do italiano “casino”, diminutivo de “casa”. No início, no século XVII, designava pequenas casas ou pavilhões de campo dedicados ao lazer da nobreza, onde se realizavam reuniões sociais, dança, música e também jogos.
O ‘Casino di Venezia’ foi considerado o primeiro cassino do mundo, em 1638, na cidade de Veneza. Funcionava como uma maneira controlada pelo governo para permitir o jogo, que já era uma atividade popular. A Itália na época era um dos centros culturais e comerciais mais importantes da Europa, principalmente Veneza, que era uma cidade cosmopolita com uma elite rica. Os jogos se tornaram uma atividade social e política.
Posteriormente a moda foi pegando por toda a Europa e cidades como Baden-Baden, na Alemanha e Monte Carlo em Mônaco receberam os primeiros cassinos que também entraram para a história ocidental.
Com os imigrantes europeus se refugiando nos Estados Unidos, o jogo foi alcançando cada vez mais fãs e se tornando popular em ambientes menos formais. O velho-oeste era um dos principais locais, onde os jogos eram localizados nos Saloons. As cidades do Velho Oeste americano, como New Orleans, San Francisco e Deadwood, ofereciam bebidas, música e jogos de cartas como poker e blackjack em seus luxuosos Saloons. Ao contrário dos cassinos europeus, esses eram espaços democráticos, frequentados por cowboys, comerciantes e aventureiros.
Em 1905, surgia um dos maiores centros de cassinos do mundo: Las Vegas. Na época, o deserto não parecia ser um lugar promissor e a cidade pequena foi fundada como um entreposto ferroviário. Em 1931 o estado decidiu legalizar os cassinos, por conta da Grande Depressão que o país enfrentava. Contudo, foi apenas entre as décadas de 40 e 50 que os grandes empresários começaram a investir no ramo com força total. O ‘El Rancho Vegas’, fundado em 1941, foi o primeiro cassino resort.
A ideia inovadora de mesclar hotéis luxuosos, shows, teatros e cassinos em Las Vegas se espalhou pelo mundo de forma avassaladora. Macau (China), antiga colônia portuguesa, se tornou a maior cidade de cassinos do mundo em faturamento. Monte Carlo, que manteve sua tradição aristocrática, continua sendo símbolo de glamour e luxo. Cidades como Singapura, Atlantic City e várias outras replicaram o modelo de resorts-cassino.
Os cassinos deixaram de ser apenas espaços para jogar e tornaram-se símbolos culturais, integrando arquitetura temática, shows, culinária e compras. Passaram também a ser objeto de debates éticos e regulatórios, envolvendo questões como vício em jogos e lavagem de dinheiro.
O efeito Dopamina
Agora que já entendemos como a cultura das apostas se consagrou na cultura mundial, vamos aos aspectos nocivos, sobretudo, as regiões cerebrais mais afetadas por essa prática.
O cérebro possui uma área popularmente conhecida como “Sistema de Recompensa” especialmente a via mesolímbica, que conecta a área tegmental ventral ao núcleo accumbens. Essa via é responsável pela liberação de dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Estudos indicam que, durante as apostas, ocorre uma liberação significativa de dopamina, semelhante à observada em usuários de substâncias como anfetaminas.
É como se você estivesse usando Ecstasy o tempo todo enquanto faz as apostas.
Isso que nem estamos trabalhando com a hipótese de você ter vencido, mas apenas a possibilidade de vencer. O Córtex pré-frontal ventromedial é envolvido desde o começo, quando há a tomada de decisão e é preciso fazer a regulação emocional. Instantaneamente, outra região do cérebro é acionada e acende o sinal amarelo, para que você possa avaliar os riscos e recompensas. Esta é chamada de Córtex Orbitofrontal.
Quando você perde ou ganha as apostas, a região Ínsula é ativada no cérebro e automaticamente o Núcleo Accumbens, uma espécie de central de processamento, avalia as recompensas e motivações para que você continue apostando.
Além das regiões do cérebro ativas diretamente nos momentos das apostas, há outros dois fenômenos psicológicos que contribuem para a persistência do comportamento de apostas. O efeito de ‘Perda quase Ganha’ ocorre quando o resultado da aposta fica muito próximo de uma vitória, ativando áreas cerebrais similares às de uma vitória real e incentivando o jogador a continuar apostando.
E o ‘Efeito Jackpot’ refere-se à liberação intensa de dopamina durante grandes ganhos, criando uma sensação eufórica que o jogador busca repetir, mesmo que isso leve a perdas subsequentes. Por isso, os algoritmos dos aplicativos são programados para deixar você ganhar as primeiras rodadas, inserindo o apostador no Efeito Jackpot antes de torná-lo refém. É exatamente a mesma coisa que uma planta carnívora faz ao atrair uma presa.
Nem mesmo as cores são inocentes
Vermelho, amarelo, azul, verde, laranja em tons vibrantes e altamente alarmantes. Todas as cores são milimetricamente calculadas ao serem adicionadas no layout e design desses aplicativos de azar. São projetados para manter os usuários engajados e incentivá-los a continuar apostando. O vermelho, por exemplo, é associado à urgência e excitação. Não é atoa que os botões mais importantes dos painéis de comando dos filmes são vermelhos. Inclusive, os próprios botões de ação dos jogos utilizam esta cor.
Já o amarelo tem a ideia de trazer otimismo (você vai ganhar essa aposta) e alegria. É utilizado para criar uma sensação de positividade. Enquanto isso, o azul reforça a confiança e tranquilidade que o apostador precisa na hora de investir o dinheiro na partida. O verde é a cor da calma e do equilíbrio, transmitindo uma sensação de bem-estar. Por fim, o laranja combina a energia do vermelho com a alegria do amarelo, sendo eficaz para chamar atenção e incentivar ações imediatas.
A Inteligência Artificial no ramo das apostas
Se antes já era difícil ganhar, imagina agora com o uso de IAs pelas empresas de Bets. Com o avanço da tecnologia, é claro que este mercado também se uniria a outro bicho-papão da sociedade: Inteligência artificial. Como reféns das Bets, elas estão sendo amplamente utilizadas para analisar o comportamento dos usuários, prever padrões de apostas e oferecer sugestões personalizadas. Isso aumenta o engajamento, mas também pode levar a comportamentos compulsivos, já que as plataformas se tornam mais eficazes em manter os usuários apostando.
Outro ramo que as IAs estão presentes também é na Realidade Aumentada (RA), transformando as apostas em experiências mais interativas e envolventes. Esses jogos permitem que os apostadores interajam diretamente com ambientes virtuais, como se fossem videogames.
Nem mesmo as criptomoedas escaparam. O uso em plataformas de apostas oferece transações mais rápidas e, em alguns casos, maior anonimato. Além disso, surgem plataformas descentralizadas que operam sem a necessidade de intermediários, dificultando a regulamentação e o controle por parte das autoridades
E o governo?
Se existem tantos problemas envolvendo jogos de azar, principalmente na manipulação aos jogadores, porque ainda é permitido que essas empresas operem no Brasil? A Lei das Bets, 14.790/2023 estabeleceu algumas diretrizes de operação, como a implementação dos impostos em 15%, sendo que do total arrecadado, 12% são destinados a áreas de seguridade social, educação, esporte, saúde, turismo e segurança pública. E claro, a proibição de apostas para menores de idade (até porque você só deu o primeiro gole de bebida alcoólica com 18 anos, não é mesmo?).
Porém, o Marco Regulatório ainda deixou lacunas abertas como a questão da publicidade. Embora haja restrições, a presença de anúncios de apostas em eventos esportivos e mídias digitais ainda é significativa, o que pode influenciar públicos vulneráveis, incluindo menores de idade. Enquanto esta reportagem era escrita, o Senado realizou uma mudança no Marco impedindo que influencers digitais fizessem a divulgação dos jogos de azar. A decisão ainda precisa de aprovação da Câmara de Deputados e do presidente Lula.
Outros problemas são a proteção a menores de idade. A proibição da participação desse público nas apostas é clara, mas a fiscalização efetiva dessa medida enfrenta desafios, especialmente no ambiente online.
Diante de problemas tão expressivos, outros países têm lidado de maneira mais firme com os jogos de azar. O Reino Unido implementou verificações de vulnerabilidade financeira, criou um fundo obrigatório para prevenção e tratamento do vício em jogos e proibiu o uso de celebridades em anúncios de apostas que possam atrair menores de idade. A França estabeleceu a Autoridade Nacional dos Jogos (ANJ) para centralizar as licenças e controlar as atividades do setor, com foco na prevenção ao vício e proteção de menores. Já a Austrália considera a proibição gradual da publicidade de apostas, especialmente aquelas voltadas para crianças e adolescentes, e estuda a proibição do uso de cartões de crédito para apostas online.
Vítimas reais
Por trás das interfaces coloridas e promessas de ganhos fáceis das plataformas de apostas online, existem histórias de vidas desestruturadas, famílias endividadas e saúde mental comprometida. O vício em apostas, muitas vezes silencioso, tem causado impactos profundos na vida de muitos brasileiros.
Na internet o que não falta são comunidades de jogadores que relatam perdas significativas e impactos devastadores. Um deles (cujo a identidade não será revelada) descreveu que perdeu todo o salário “e agora não sei como contar para a minha família. Estou pensando em suicídio”.
Um dos casos mais emblemáticos foi contado por uma reportagem do UOL em dezembro de 2024. Vinícius Ferreira de 28 anos tirou a própria vida após perder dois empregos e endividar-se com os jogos online. Segundo a família, Ferreira conheceu as bets por meio de influenciadores digitais.
Vilões da vida real
Na Disney, os vilões mais manipuladores como Úrsula ou Loki ganham destaque por suas histórias e maneiras de enganar os heróis. Boa parte disso é porque sabemos que eles são ficção. Contudo, na vida real eles não estão escondidos no oceano e sim na tela do celular.
O Brasil tem uma das maiores listas de influenciadores digitais e celebridades que divulgam jogos de azar. Confira no infográfico ao lado a lista com os maiores. O caso mais recente foi da influenciadora Virgínia Fonseca, na CPI das Bets, que aconteceu no dia 13 de maio de 2025. Durante seu depoimento, Fonseca foi convidada a responder perguntas sobre os contratos com as empresas, os cachês pagos e principalmente o famoso ‘cachê da desgraça’ que paga uma porcentagem adicional aos influenciadores, pelas perdas dos seguidores que apostaram através de seus links.
A influenciadora esclareceu na oitiva que poderia receber 30% a mais, caso ela contribuísse para que o lucro da empresa fosse dobrado, mas negou que se tratasse das perdas dos jogadores.
Fato é que os jogos de azar fazem parte da cultura popular há muitos anos, mas será que há necessidade de continuá-los? Entre centenas maneiras de entretenimento menos nocivos, quais as opções que podem substituir? É importante que cada jogador tenha noção que o vício não pede moderação e que a conta vermelha será sempre a dele, nunca a de Virgínia.
Se você conhece alguém que esteja viciado em jogos de aposta, ajude-a!
