O Brasil se despede de um dos seus maiores contadores de histórias. Morreu no final da noite deste sábado (10), o dramaturgo, escritor e diretor Manoel Carlos, carinhosamente conhecido como Maneco. Aos 92 anos, o autor faleceu em sua residência no Rio de Janeiro. Embora a causa exata da morte não tenha sido detalhada pela família, o autor lutava há cerca de seis anos contra a Doença de Parkinson, vivendo de forma reclusa em seu apartamento no Leblon — o bairro que ele próprio imortalizou no imaginário nacional.
O velório será restrito a familiares e amigos íntimos, conforme nota divulgada por sua filha, a atriz Júlia Almeida. A partida de Maneco encerra um capítulo de ouro da teledramaturgia brasileira, deixando órfãs as suas famosas “Helenas” e uma legião de telespectadores que viam em suas obras um espelho da própria vida.
Embora tenha se tornado o maior cronista do Rio de Janeiro, Manoel Carlos Gonçalves de Almeida nasceu paulistano, no bairro do Pari, em 14 de março de 1933. Sua carreira é quase tão antiga quanto a própria televisão no Brasil:
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Anos 50: Estreou na TV Tupi como ator e roteirista, apenas um ano após a chegada do veículo ao país.
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Anos 70: Ingressou na Rede Globo em 1972, onde foi diretor-geral do Fantástico em seus primeiros anos.
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A Consagração: Em 1978, estreou como autor de novelas com Maria, Maria. Mas foi em 1981, com Baila Comigo, que ele apresentou ao mundo sua marca registrada: a primeira Helena.
O fenômeno das Helenas e o estilo “Maneco”
Para uma atriz brasileira, ser escolhida como uma “Helena de Manoel Carlos” era o ápice da carreira. Elas não eram heroínas impecáveis; eram mulheres maduras, complexas, muitas vezes eticamente questionáveis, mas profundamente humanas. Foram 6 Helenas ao longo de sua carreira. “Baila Comigo” (1981), “Por Amor” (1977), “Laços de Família” (2000), “Mulheres apaixonadas” (2003), “Viver a vida” (2009) e “Em Família” (2014).
O cenário era quase sempre o Leblon. Maneco transformou as ruas, as livrarias (como a Argumento) e os cafés do bairro em personagens vivos. Sua escrita era embalada pela Bossa Nova, com diálogos longos e intimistas que pareciam crônicas do cotidiano da classe média alta carioca.
A TV além do entretenimento
Manoel Carlos não apenas narrava amores; ele mudava a realidade social. Seus folhetins foram fundamentais para:
Doação de Medula Óssea: A cena de Carolina Dieckmann raspando a cabeça em Laços de Família causou um aumento recorde no registro de doadores no Brasil.
Estatuto do Idoso: O drama dos avós maltratados pela neta Dóris (Regiane Alves) em Mulheres Apaixonadas acelerou a aprovação da lei no Congresso em 2003.
Conscientização: Abordou temas como alcoolismo, violência doméstica, câncer e deficiências físicas com uma sensibilidade que gerava debates nacionais no dia seguinte.
A vida pessoal de Maneco foi marcada por tragédias que ele, com sua resiliência característica, dizia não “superar”, mas sim “aprender a conviver”. O autor perdeu três de seus cinco filhos: Ricardo (vítima de complicações da AIDS em 1987), Manoel Carlos Júnior (ataque cardíaco em 2012) e Pedro (mal súbito em 2014, aos 22 anos). Além disso, sua primeira esposa faleceu precocemente em um acidente de carro.
Essas dores pessoais transpareciam na profundidade de seus textos. “A vida é feita de perdas, e a gente escreve sobre o que dói”, disse ele em uma de suas últimas entrevistas.
Manoel Carlos deixa a esposa, Elisabety Almeida, com quem foi casado por mais de 40 anos, e duas filhas, Júlia e Maria Carolina. O sol se põe no Arpoador hoje com um brilho a menos, mas a obra de Maneco permanece como o maior inventário das emoções humanas da TV brasileira.
