Hamnet: A Alquimia da Dor em Forma de Arte

Enquanto a história costuma celebrar a genialidade pública de William Shakespeare, a diretora Chloé Zhao decide olhar para o que ficou nas sombras: o luto, a terra sob as unhas e o silêncio de uma casa assombrada pela ausência. Baseado no aclamado romance de Maggie O’Farrell, Hamnet não é uma cinebiografia tradicional sobre o bardo de Stratford-upon-Avon, mas sim um estudo íntimo sobre como a perda de um filho se torna a matéria-prima da imortalidade literária.

O filme foca na dinâmica entre Agnes (Jessie Buckley) e William (Paul Mescal). O centro da narrativa é a morte de Hamnet, o filho de 11 anos do casal, vítima da peste bubônica. Zhao, conhecida por sua sensibilidade estética em obras como Nomadland, traz aqui uma sensação de realismo tátil: sentimos o frio das casas de palha, o isolamento rural e a crueza de uma época onde a morte era uma vizinha constante.

A direção opta por um ritmo deliberadamente lento. Não há pressa para chegar ao “momento da inspiração”. O filme se permite observar os pequenos e dolorosos rituais do luto. Para o espectador acostumado com dramas históricos ágeis, a lentidão pode ser desafiadora, mas ela é essencial para construir o impacto emocional. O filme entende que o luto não é um evento, mas um estado de ser.

Foto Agata Grzybowska / © 2025 FOCUS FEATURES LLC

O destaque absoluto reside em Jessie Buckley. Sua Agnes não é apenas a “esposa do poeta”, mas o coração pulsante da obra. Ela eleva o filme de um drama de época comum para um estudo psicológico profundo sobre a maternidade interrompida. Ao seu lado, Paul Mescal interpreta um Shakespeare distante e fragmentado, que encontra na escrita não uma fuga, mas a única forma de reorganizar uma dor que as palavras comuns não alcançam.

“Hamnet não é um filme sobre Shakespeare escrevendo peças; é um filme sobre como o amor e a perda são as matérias-primas de tudo o que sobrevive ao tempo.”

A trilha sonora de Max Richter complementa a atmosfera lírica e triste, funcionando como um fio condutor que une a tragédia doméstica à criação de Hamlet. O roteiro, coescrito por Zhao e a própria Maggie O’Farrell, é habilidoso ao mostrar como o “vácuo” deixado pelo filho forçou William a dar voz ao seu fantasma no palco.

Hamnet é uma obra específica para quem aprecia a intersecção entre literatura e drama íntimo. É um filme “sujo”, humano e profundamente melancólico que humaniza o maior mito da literatura inglesa através da dor de sua família. Ele nos lembra que, por trás de cada obra-prima que resiste aos séculos, houve um coração que precisou se quebrar primeiro.

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