Motor a álcool pré-vaporizado (MAPV): A inovação brasileira de alta eficiência

Foto: São Carlos em Rede

Em 2003, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), campus de São Carlos, desenvolveram uma tecnologia revolucionária que prometia maior independência energética para o país: o Motor a Álcool Pré-Vaporizado (MAPV). Trata-se de um tipo de motor onde o combustível etanol é vaporizado por um dispositivo aquecedor inédito, denominado estequiômetro, antes de ser queimado. Essa nova alternativa à gasolina demonstrou um rendimento superior não apenas aos carros movidos a gasolina, mas também aos que utilizavam o álcool convencional.

A pesquisa, coordenada pelo saudoso professor e cientista Romeu Corsini, um dos pioneiros do programa Pró-ácool e então superintendente do Centro de Pesquisa da USP São Carlos, representava um salto tecnológico. O sistema desenvolvido por sua equipe aproveita o calor gerado pelo escapamento ou pelo sistema de arrefecimento do veículo para vaporizar o combustível. Nesse processo, o combustível só é injetado nos cilindros do motor e queimado depois de ser totalmente vaporizado, assegurando uma combustão completa.

Os testes realizados pela instituição foram impressionantes: um veículo modelo Monza, equipado com o MAPV, percorreu 16 km com um litro de combustível. Em comparação, o mesmo carro com motor a gasolina fez 12 km/l, e com álcool comum, 10,5 km/l. Em outros desenvolvimentos, motores com essa tecnologia chegam a fazer 13-14 km/l de álcool. Embora a gasolina, em alguns casos, pudesse atingir 16-17 km/l, o custo-benefício do álcool, considerando seu preço historicamente mais baixo, tornava o MAPV extremamente vantajoso.

As vantagens do sistema são numerosas:

  • Redução no consumo de combustível devido à eficiência da combustão completa.
  • Significativa redução nas emissões de poluentes, contribuindo para um meio ambiente mais limpo. Estima-se que cada carro movido a álcool despolua o equivalente a três carros movidos a gasolina.
  • Maior independência do país em relação ao petróleo importado.

A superioridade da técnica do MAPV fica clara ao comparar os combustíveis. Enquanto no sistema convencional o álcool chega à câmara na forma líquida, prejudicando o desempenho, o estequiômetro garante sua vaporização total. A gasolina, por ser composta por mais de 20 tipos de combustíveis com diferentes fases de combustão (de 20°C a 200°C), sofre de baixa eficiência: o consumidor paga por 100% do combustível, mas aproveita apenas cerca de 26%. O álcool, com sua única temperatura de combustão de 78,3°C, vaporiza-se completamente e é integralmente aproveitado no MAPV.

Existem diferentes abordagens para o sistema, sendo a mais notável a vaporização pelo aproveitamento do calor gerado pelo escapamento do veículo, desenvolvida pelo Prof. Romeu Corsini. Além de veículos leves, pesquisas continuam a ser realizadas visando o desenvolvimento de motores a álcool pré-vaporizado para veículos de grande porte, ampliando ainda mais o potencial de aplicação da tecnologia.

Apesar do protótipo do estequiômetro ter sido finalizado com sucesso, a tecnologia não recebeu a aprovação e os incentivos necessários do governo. Na esperança de viabilizar o projeto, os pesquisadores encaminharam uma carta ao então ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Roberto Rodrigues.

O legado do coordenador dessa pesquisa, Romeu Corsini, é vasto. Autor de dezenas de projetos de interesse nacional, ele foi professor titular em transporte aéreo na USP, superintendente do Centro de Pesquisas de São Carlos e conselheiro da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA). Corsini faleceu em 25 de março de 2010, na cidade de São Carlos, onde residia, deixando um importante contributo para a ciência e a engenharia nacionais. A sua inovação com o Motor a Álcool pré-vaporizado permanece como um testemunho de seu trabalho visionário e uma solução promissora que aguarda seu momento de ser massivamente adotada.

About The Author

Mais do mesmo autor

Apanhador de Almas traz o lado sombrio da magia, mas tropeça em efeitos e atuações

Vencedor de quatro prêmios em Cannes, “O Agente Secreto” é selecionado para representar o Brasil no Oscar 2026