Akpalô abre ciclo 2026 com literatura afro-curitibana e jongo na Casa de Cultura Àlàáfíà neste sábado

O Akpalô: Sarau Afro-curitibano retoma sua programação em 2025 com o seu “Ato 4”, neste sábado (17), na Casa de Cultura Àlàáfíà, no bairro São Francisco, em Curitiba. O encontro marca o primeiro de três eventos previstos para este ano, sendo que os próximos acontecem nos dias 31 de janeiro e 7 de fevereiro, e dá continuidade ao ciclo iniciado em 2024. No ano passado foram três atos marcados por forte presença artística, ancestral e comunitária.

A programação do “Ato 4” se estende das 10h às 17h, com atividades gratuitas que atravessam escrita, oralidade, literatura afro-curitibana, roda de rima e cultura tradicional afro-brasileira, reunindo diferentes gerações em um mesmo espaço de partilha, criação e memória.

Das 10h às 12h, acontece a oficina “Editando escrevivências pretas”, conduzida por Mestre Kandiero. A atividade propõe reflexões e práticas a partir da escrevivência enquanto ferramenta política, estética e de afirmação da memória negra, estimulando participantes a revisitarem seus textos e narrativas sob uma perspectiva crítica, coletiva e ancestral.

Segundo Mestre Kandiero, o exercício da escrevivência acompanha historicamente a população negra, ainda que muitas vezes não seja reconhecido como produção literária formal. Mas o objetivo é mostrar que um registro não precisa seguir “determinados formatos” para ser legítimo.

“Esse assunto das ‘escrevivências pretas’, ao mesmo tempo em que é algo muito antigo, também é algo recente. A população negra sempre dá um jeito de escrever a sua própria história, seja de forma poética, seja por meio da música, do RAP, do samba ou da capoeira. A população preta sempre está fazendo esse registro”, afirma.

Ele destaca que, em um território marcado pelo apagamento da memória negra, a escrita se torna uma ferramenta urgente de afirmação. Para Kandiero, a oficina também busca estimular coragem e partilha entre quem escreve.

“Nesse território chamado Paraná, em Curitiba, onde o epistemicídio, o assassinato da memória é tão forte, torna-se urgente que as pessoas tragam as suas histórias de luta, de vitória e de dor. As experiências do que é ser um afro-curitibano, um afro-paranaense, as vivências de família, essa bagagem que cada um carrega”, pontua. “Eu acredito que essa oficina possa contribuir para que as pessoas peguem aqueles escritos que estão guardados e ganhem coragem para mostrá-los aos outros. Normalmente, quem escreve, escreve para si, mas não sabe que esses escritos podem ajudar outras pessoas a se encontrarem”, diz.

Ele reforça ainda que a escrita preta carrega códigos próprios: “As regras da escrita preta são um pouco diferentes dessa escrita eurocêntrica. Esse nosso encontro vai nos ajudar a trazer a nossa escrevivência, a nossa verdade, para as pessoas”.

Sarau Literário e roda de rima

Das 13h às 15h, o público é convidado a participar do Sarau Literário, com leitura das produções dos participantes da oficina e de textos de autores e autoras afro-curitibanos, sob condução de Andressa Medeiros e convidados. O momento reafirma o sarau como espaço de circulação da literatura negra local, valorizando vozes que historicamente enfrentam invisibilização nos circuitos culturais da cidade.

Para Andressa, iniciativas como o Akpalô cumprem um papel central na ampliação desses espaços.

“Este é um espaço que tem crescido em todo o país, e em Curitiba não é diferente. Acredito que ações e eventos como estes ampliem a visibilidade da literatura afro. O ponto forte tem sido promover encontros e diálogos entre diferentes grupos e linguagens artísticas, o que fortalece coletivos, escritores e artistas que trabalham com a palavra”, avalia.

Além do sarau, a roda de rima irá com participações do MC Handal, da MC Cicca, de Samuka (da Associação dos Rimadores) e o jovem poeta Davi Black. A programação contará ainda com a discotecagem do DJ Lu Black, que acompanha o momento com música e ambientação sonora.

Roda de jongo para o público sintonizar com a cultura afro

Encerrando o dia, das 15h às 16h, acontece a Roda de Jongo, conduzida pelo grupo Cazuá da Mina, com participação de Rosane Arminda, Mestre Kandiero e a Professora Idalina. A vivência convida o público a experimentar o jongo não apenas como expressão cultural, mas como prática coletiva de corpo, memória e resistência, aberta também à participação de pessoas que nunca tiveram contato com a manifestação.

A Professora Idalina ressalta que o desconhecimento sobre as culturas de matriz africana ainda é um desafio, especialmente em contextos urbanos como Curitiba.

“Na minha visão, as pessoas ainda não conhecem a nossa cultura. Nós temos uma cultura muito vasta, imensa, principalmente aqui na nossa região. Muitas vezes, tudo o que se refere à cultura de matriz africana é entendido como algo exclusivamente ligado à religiosidade, mas a nossa grande função hoje é divulgar a arte”, explica.

Ela destaca que manifestações como o jongo, a capoeira e o samba de roda devem ser vivenciadas de forma aberta e acessível.

“A partir do momento em que você começa a divulgar essa arte, as pessoas passam a ter um entendimento maior sobre o assunto. É importante abrir o jongo, abrir uma roda de samba, abrir uma roda de capoeira, porque muitas vezes as pessoas assistem, mas sem ter noção do que realmente é”, afirma.

Para Idalina, o contato direto transforma a relação do público com essas expressões culturais.

“Quando as pessoas participam, se organizam mentalmente e se permitem viver essa experiência, elas crescem muito mais e ganham força para lidar com as adversidades que a vida proporciona”, conclui.

O Akpalô constantemente reafirma o compromisso com a valorização das oralidades, das literaturas negras e das expressões culturais de matriz africana e indígena, fortalecendo redes entre artistas, educadores(as) e comunidade, e consolidando-se como um espaço de encontro, aprendizado e celebração da presença afro-curitibana na cidade.

Em tempos de pré-carnaval e cientes da quantidade de eventos que estão programados para Curitiba neste final de semana, convidamos a todos a separarem um tempo para ir à Casa de Cultura Àlàáfíà, no bairro São Francisco, e viverem novas experiências sintonizadas com a terra mãe África.

Sobre o Akpalô: Sarau Afro-curitibano

O Akpalô desponta como uma das principais iniciativas do calendário cultural da cidade. O ciclo é dedicado às oralidades, literaturas e artes de matriz africana e indígena. Inspirado na figura do akpalô, o contador de histórias e guardião de saberes da tradição iorubá, o projeto reúne mestres, educadores(as), artistas e comunidade em práticas que integram arte, educação e ancestralidade.

A realização é da Ariramba Cultural, da Associação dos Rimadores e do Centro Cultural Humaita, com coprodução da Casa de Cultura Àlàáfíà e de Mônica Margarido Produções Culturais. Durante as atividades, o público também poderá saborear pratos da culinária afro-brasileira preparados pela Àlàáfíà.

Apoio institucional

O projeto é viabilizado com apoio da Câmara Municipal de Curitiba e de vereadoras e vereadores que reconhecem a arte e a educação como ferramentas de transformação social. A iniciativa conta com emenda parlamentar coletiva articulada pela vereadora Giorgia Prates (PT), em colaboração com os vereadores Serginho do Posto (PSD) e Pier Petruzziello (PP).

Serviço – Akpalô: Sarau Afro-curitibano

Data: 17 de janeiro (sábado)

Horário: das 10h às 16h

Local: Casa de Cultura Àlàáfíà – Rua Jaime Reis, 480, São Francisco – Curitiba

Entrada: Gratuita

Programação:

10h às 12h

Oficina “Editando escrevivências pretas” (2h) — com Mestre Kandiero

 13h às 15h

Sarau – leitura das produções dos participantes e de autores afro-curitibanos (1h) — com Andressa Medeiros e convidados

Roda de rima com MCs

 15h às 17h

Roda de Jongo (2h) — com Cazuá da Mina, Rosane Arminda, Mestre Kandiero e Professora Idalina.

Programação completa em arirambacultural.com.br

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